11 de junho de 2011

Vida, Liberdade, Dignidade, Amor, Já!!!

Conflito no campo não dá audiência na política brasileira, no blog idem... Situações recorrentes sempre são chatas, a realidade incomoda, as vezes ignorar e calar, seja uma forma de protestos de alguns, não consigo! Vindo na contramão da romântica semana dos namorados, muitos casais, famílias sendo feridas no seu principal direito: Direito de viver... Viver a liberdade, a dignidade e o amor.


Recebi ontem um e-mail de um amigo Professor/Historiador Helen, aprecio muito a sua forma peculiar de escrever, a sua inquietude e a forma crua de protestar com as palavras, e cada uma vale o seu tempo desprendido para esta leitura.


Assassinatos de camponeses revelam a inutilidade do nosso clamor

Helen Lopes de Sousa

Segundo o ensaísta Hans Magnus Enzensberger, “o homem é o único primata que planeja o extermínio dentro de sua própria espécie e o executa entusiasticamente e em grandes dimensões”. Já os filósofos Gilles Deleuze e Feliz Guattari definiram a “máquina de guerra” como “exterior ao aparelho de estado”. Fica a pergunta: como caracterizar o atual estado de coisas? Como definir as centenas de assassinatos de camponeses no Brasil atual? Como parar esta máquina de guerra que funciona em silêncio? O noticiário freqüente da imprensa revela a vulnerabilidade e insegurança que vive os milhares de trabalhadores rurais do país. Não existe uma política séria de enfrentamento do problema. De quem é a culpa?

O assassinato é sempre culpa do “outro”. Ninguém se arvora em querer partilhar com os assassinatos. O assassinato de camponeses, ativistas, religiosos é um tipo de latifúndio improdutivo que ninguém quer dividir. As mortes dão à sensação de que algo aconteceu, quando nada parece ter acontecido. Trata-se de uma coisa que sempre esteve presente em nossa tosca sociabilidade, algo que acontece sem parar. Uma máquina sangrenta e silenciosa. No Brasil, assassinato de trabalhadores rurais cumpre sua função nos rituais antigos de sacrifícios, servem para nos purificar. Diante das notícias todos se indignam, lamentam, ficam mais “bonzinhos”.

A CNBB torna-se santificada... Os políticos se mostram consternados... Os movimentos sociais correm com as caras compungidas e seguram os caixões como se fossem os proprietários privados da dor. Os assassinatos de camponeses têm a vantagem de revelar a inutilidade do nosso clamor. Nosso clamor não está nos assassinatos. O campo não é o mundo das idéias. Lá, o mundo é sangrento e cruel. Portanto, o assassinato é uma maneira eucarística do nosso clamor. Devoramos aqueles corpos como devoramos um prato de chambarí. O assassinato é iluminista, uma aula de vida, melhor, de morte.

Os assassinados/assassinos são mais profundos do que nós. Nós falamos, eles estão atolados até o pescoço na escrotidão do sangue e da merda fétida. Eles nos limpam e nos aliviam. Graças a Deus, não estamos lá. Graças a Deus, podemos-nos “injuriar”, nos “indignar”. Os assassinos cumprem as ordens invisíveis advindas das mais variadas partes: dos fazendeiros, dos políticos, dos juízes, da lógica colonialista e escravagista e secular. Para eles não existem assassinatos, muito menos assassinos, trata-se apenas de mais um dia comum e corriqueiro e agitado de quem sobrevive no inferno. Os assassinos são nossos enviados especiais, nossa tropa de elite. Os assassinos (desde Chico Mendes, Dorothy Stang, dos 19 sem-terra etc.) são nossas vanguardas, nossos guardas. Fica a sensação de que “bem” e “mal” se misturaram numa massa sangrenta. O país fica chocado, indignado, mas ninguém sabe da verdade. É como se todas as pessoas fossem assassinas e vítimas simultaneamente.

Os assassinos deixam entrever a síntese do que é o Brasil. Eles agem enquanto os mantenedores da política de extermínio, da nova ordem mundial. A culpa é sempre da vítima. Na verdade, ninguém tem o direito da escolha: nem morto, nem matador. Os incontáveis assassinatos de camponeses servem enquanto coisa útil, porque aprendemos mais sobre o Brasil... Aprendemos muito sobre nosso destino escroto, sobre as reformas que a democracia não quer fazer... Aprendemos que reforma agrária é discurso vazio em momentos de campanha eleitoreira... Aprendemos que a morte é coisa simples e banal... Aprendemos com os assassinatos sobre o oportunismo dos bons.

Com os assassinatos de camponeses aumentaram o patrulhamento sobre qualquer debate que discorde da reforma agrária clássica dos sem-terra. Debater sobre as questões da agroindústria e da produção de alimento é ser visto como representante do “neoliberalismo de direita”. Os assassinatos de trabalhadores rurais fazem o governo reconhecer um erro político para não cometer um erro político. Os intelectuais, por sua vez, adoram uma tragédia figée, em galantine, uma tragédia em conserva. Preferimos as tragédias simbólicas. Uma miséria boa e interpretativa. A tragédia e a miséria tinham uma função social: aplacar nossa consciência. Antes, a tragédia existia enquanto mera figurante, agora, ela quer ser coadjuvante principal. Os assassinatos nos revelam como o humanismo é pouco, diminuto. O assassinato mostra que os fatos correm mais velozes do que as interpretações, do que nossa piedade e condolências hermenêuticas que não explicam nada. Vejam as decisões sublime do tribunal de justiça do Pará sobre Eldorado do Carajás: “a culpa foi das vítimas!” foram 19 culpados. Por fim, os assassinatos demonstram que uma solução para o campo não emociona ninguém, que não estamos suficientemente preparados para realizá-la. Não gera votos, essa é a verdade.


18 comentários:

  1. Só tenho palavras para lhe dizer: Parabéns, menina! O que você escreveu, deveria parar nas páginas dos jornais. Tem toda a razão do mundo. Enquanto eu postava aquela maravilha de letra do Ivan Lins falando da Bandeira do Divino e quando ele diz:" Que o homem seja livre, que a justiça sobreviva", acredite, eu me lembrei dessas pessoas assassinadas. Fiquemos na esperança de que mudará e que a justiça se concretize. Abençoado fim de semana! Bjbj!

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  2. É Maria Luiza, essa "esperança" está demorando chegar por estas bandas, infelizmente...

    Um bom sábado p/ vc.

    Beijoooooooo

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  3. Uma situação não aceitável, DE FORMA ALGUMA! A INDIGNAÇÃO e AçAO são necessárias! beijos,lindo fds.,chica

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  4. Oi amada, me comprime o coração essas situações, temos que mudar a nossa atitude para que isso se transforme,insistindo sempre para quebrar esse fluxo da desordem e autoritarismo, é um abuso, beijos querida, obrigada pelo teu carinho, um bom final de semana.

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  5. Aviolencia esta a cada dia tomando proporções.É preciso mudar...falta Deus nos corações das pessoas....,bjo

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  6. Quem colocou a corja no poder legislativo? Não fui eu.

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  7. Ola Bia

    Tenho percebido que quando o assunto e polemico a grande maioria de seus leitores se calam e acredito que nem seja por concordarem. Eu acho que o tempo das cavernas esta de volta.
    Respondi a suas perguntas la no bloguito.

    Um otimo sabado.

    BJoooooooooo............
    http://amigadamoda.blogspot.com

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  8. oii
    isto tudo me deixa triste, revoltada -
    e esta alma inquieta de Helen Lopes - é disto que precisamos urgente - mais e mais inquietos , que tem um senso critico e botam a boca no trombone , escrevem a nossa dura realidade , que nem parece século 21 - e eu sempre falo que a ditadura continua (de forma camuflada e não mais militar) e a monrquia também, de forma moderna ! e o que mais me chamou atenção foi que o ser humano , são os unicos que fazem isto com sua própria espécie-étriste mas é mais pura verdade! me indigno quando falam - parece um animal ! animal não faz isto !
    bj
    lu

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  9. Olá.
    Obrigado pela sua visita.

    O coração lindo vai convidar toda a paz.
    sua cor paixão...
    Profundamente colorido espaço deixa no Extremo Oriente

    forte abraço, do Japão.
    ruma

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  10. Olá, olá! Prazer! Vim agradecer ao comentário carinhoso que vc deixou lá na minha entrevista no Blog da Elaine! Muito obrigada! ;) E tb te dar as boas-vindas aos meus Blogs!

    Seu Blog é muito interessante, adorei! Voltarei mais vezes, certamente!

    Beijo, beijo!
    She

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  11. Bia, acho que esse post não está na contramão do romantismo está na direção certa, a do amor, simples e puro. Os assassinos, graças a interpretação de nossas leis ficam impunes a maior parte do tempo, seja por recursos impetrados, ou não. Fato é que deveriamos conseguir mobilizar as pessoas para que nossos juízes começassem a cumprir nossa lei máxima a constituição, onde somos (e só lá é que somos) iguais. Ou seja ambos assassino e vítima devem ser valorizado e não desprezado.
    Ainda acredito que num futuro próximo atingiremos o tão esperado sistema que funcione.
    Parabéns pelas palavras Helen, foi realmente muito tocante, nos faz abrir o coração para esta questão.
    Parabéns a você amiga Bia, por nos presentear com este texto tão bem escrito.
    Tenha um ótimo final de semana
    Abraços

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  12. Desconhecia querida Bia! É lamentável, é revoltante! Óptimo teres feito uma publicação denunciando a situação!
    Beijos,
    Manu

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  13. Bia
    Este post lavou a alma de muita gente e não se pode ficar parado. Tem que seguir na luta para o sistema operante. Resta a indisgnção, a revolta, mas não se pode ficar calado. Tenho fé de um futuro melhor.

    Parabéns pelo brilhante post e temos que denunciar,gritar bem alto para que faça eco.

    Obrigado pelas suas palavras de sempre,

    Beijos no seu coração e um lindo final de semana

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  14. Isso está mau! O Homem é de facto maravilhoso mas pode ser uma grande besta. No mau sentido. Matar não é solução. Matar é covardia.

    Contra isso há que gritar e lutar (sem matar!!!)...

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  15. Olá!

    Obrigada pela visitinha ao blog, seja sempre bem vinda!

    Beijos e até logo,

    Kira

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  16. Oi amiga! Acabei de colocar esse post. na minha página do Facebook.
    É triste, vermos sempre a mesma notícia sobre os viventes do campo. E nada, nada tem sido feito!

    O artigo que apresentei no evento (I SILE E XVI SELE) na UNIR. Usei alguns autores portugueses, que tratam nos seus romances e poemas - a questão "a cidade lugar de morte, enquanto o campo é lugar de vida". E coloquei que existe uma dualidade - Cidade e Campo apresentam o mesmo sentido - vida e morte. E nas considerações...é que aja planejamento político não só pra cidade, mas para seu entorno, o campo. E pensarmos esses dois espaços (campo e cidade) numa relação, sem separá-los.

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  17. Ola Bia

    Passando para desejar um otimo saturday night e um maravilhoso domingo.

    Uma otima noite
    BJooooooooo................

    http://amigadamoda.blogspot.com

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  18. Infelizmente é a verdade nua e crua do nosso páis!
    Lamentável...

    -Já está participando do sorteio lá no blog?
    gothicowl.blogspot.com

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Amo a participação de vocês! Através dos comentários, troca de experiências, informações, alertas, "puxadas de orelhas". Tudo é uma eterna aprendizagem... Grata.

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