31 de outubro de 2010

Eleições...

Hoje todo Brasileiro está votando ou justificando, honestamente queria exercer a minha cidadania, a liberdade democrática de não votar. "Democraticamente" sou obrigada votar. 
Vou copiar um texto polêmico de um amigo meu, historiador e professor. É um cenário descritivo dos bastidores da política brasileira, acredito que para o momento seja bastante pertinente. Boa eleição para todos! 

Retrocesso político, fundamentalismo religioso e cinismo eleitoreiro.

Helen Lopes de Sousa

Não agüento mais o horror político do atual momento. Às vésperas do segundo turno que decidirá as eleições para presidente, os candidatos se apresentam numa profusão discursiva e midiática que mais servem para confundir do que esclarecer o eleitor. Diante dos apelos publicitários, a sociedade se vê arrolada e acuada em meio a uma avalanche de disse-me-disse entre os opositores. No atual cenário político, vive-se uma verdadeira batalha das máscaras. Caretas para todos os gostos e de todos os tipos. Na batalha campal para presidência da república, Dilma e Serra se acusam mutuamente de mascarados (eu quase digo, descarados), homem e mulher de duas e/ou mil faces e farsas. No fogo cruzado dessas carrancas, como fica o eleitor? Em qual das caras deve-se acreditar? Quem exibirá a maquiagem mais bem feita e conquistará os votos do eleitorado? Perguntas sem respostas, pois neste teatro de sombras, tudo pode acontecer.
Dessa forma, entre mil e tantas caras, o que assistimos é uma enxurrada discursiva de promessas vãs. Ele diz que fará e ela rebate que continuará. Ambos os candidatos alardeiam o fortalecimento da democracia, o desenvolvimento da economia, a extirpação da pobreza e da miséria, a transformação social, melhoramentos na educação, na saúde e tantos outros engodos recorrentemente utilizados na tentativa de ludibriar a sociedade. No jogo e jargão da eleição, vale tudo para se conquistar os votos dos eleitores. Então qual seria a diferença entre as duas caras de Dilma e as mil de Serra? Nenhuma! No fundo, ambas as caras são as imagens de um país refletido num espelho côncavo, devorador. Ambas comem por dentro e por fora e o eleitor é o alimento da gula famigerada pelo poder.
Neste sentido, cabe perguntar: que política se faz dentro da realidade brasileira? Somos um país nutrido pelos vícios coloniais, de heranças ibéricas. Ressuscitamos velhos hábitos culturais que marcam nosso caráter ou a falta dele, além é claro, da economia e da ideologia. Mas o país mudou: a economia cresceu, saímos da condição de devedor para credor; houve a expansão da educação, com o reuni e prouni; os pobres estão menos pobres, com a bolsa família, dirá o leitor mais otimista. Evidentemente que ocorreram mudanças. Agora, ao invés de pensarmos isso enquanto dádiva de um presidente, seja ele qual for, talvez fosse interessante pensar que ele não “fez” mais do que seu dever, afinal de contas esta é sua função. No entanto, no Brasil, deveres políticos são confundidos com favores pessoais e noticiados enquanto ação messiânica. Políticos se auto-promovem e fabricam imagens de si próprio, como se fossem “santos milagreiros”.
É inegável que mudanças substanciais aconteceram no país. Mais dito dessa forma parece não passar de mero favor, e ao eleitor, cabe retribuir ao benfeitor. Cotidianamente ouvimos dizer que foi o fulano, o sicrano ou beltrano quem fez isso ou aquilo para população, como se estivessem prestando favor à sociedade, sobretudo para os pobres/miseráveis, tidos e entendidos enquanto massa de manobra eleitoreira. No entanto, algo de inédito se passa nesta eleição. Há começar pelo fato de que nunca antes na história política do país, tivemos uma mulher na disputa para presidência da República, e, diga-se de passagem, com reais condições de ser eleita. Por um instante somos impulsionados a imaginar de que a dominação masculina está com seus dias contados. Que a democracia brasileira está se tornando sólida.
Entretanto, basta um pouco mais de atenção para se perceber que o retrocesso chega a galope. Na tentativa de conquistar os votos do eleitorado evangélico, ambos os candidatos mais parecem um inquisidor da idade média. Questões históricas e urgentes são tratadas com desprezo e ignorância, tais como o aborto e a união civil de homossexuais. Num país rico em preconceito, como o nosso, é estarrecedor e preocupante que os candidatos se apresentem contrários há este debate.
Mais do que uma ameaça a nossa “moral da cegonha”, penso que o aborto é um problema de saúde pública, de responsabilidade, única e exclusiva do Estado. Já no que diz respeito à união civil entre pessoas do mesmo sexo, mais do que uma visão preconceituosa, trata-se de garantias de direitos civis e não de fundamentalismo religioso, cristão, diga-se de passagem.
Assim sendo, digo que é inadmissível que uma pessoa ou pessoas que pretendem comandar a nação, se arvore e advogue em prol do fundamentalismo religioso e alimente a pecha do preconceito social. Ou seja, quantas mulheres ainda precisam morrer por falta de assistência médica e em decorrência de aborto mal sucedido? Quantos homossexuais precisam ser assassinados em nome de uma cultura homofóbica e sem que o Estado (a polícia) prendam os culpados?
Se de fato formos um país democrático, como dizem os candidatos, o aborto e a união estável entre pessoas do mesmo sexo não podem ser tratado enquanto moeda de barganha eleitoreira. Pelo contrário, este é um assunto que deve ser colocado na ordem do dia e na pauta dos debates. No entanto, o que se vê é o retrocesso político ao mais tacanho moralismo, em prol da conquista dos milhões de votos de protestantes e católicos, no mais assustador espetáculo midiático de fundamentalismo religioso e cinismo eleitoreiro. 

5 comentários:

  1. Aqui já votamos. Mas vou te dizer, Beatriz, a cara de desolação do pessoal era um horror. Sabe aquele sentimento de "vou escolher o menos pior"?
    o voto não devia ser obrigatório. Políticos teriam que se esforçar para ganhar um voto, fazer o cidadão sair de casa e votar nele né.

    e a qualidade melhoraria muito!
    bjs

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  2. AInda não votei. Mas já escolhi meu candidato (jesus Cristo), como repúdio a essa desvergonha, que os dois candidatos promoveram nessas disputas eleitorais. Eu protesto, porque não tenho escolha. Sinto-me desprivilegiada, politicamente falando, pois nenhuma proposta em voga, atende às minhas necessidades. Mato um leão por dia, para ter que me desesperar em escolher o candidato menos pior. Não voto em nenhum dos dois, pois é meu direito de não votar em quem não me agrada. Enquanto ao texto, resume muito bem, o que sinto dessa politicagem descarada.

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  3. Bia, concordo com o Alexandre, é triste ter que escolher o menos pior para não anular o voto, como podemos chegar neste ponto?Bjs, Va.

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  4. Os meu desejo é que o teu País tenha umas eleições justas.
    Que o povo não sinta mudanças para pior.
    Desejo tudo de bom para o nosso povo irmão.
    Felicidades minha amiga. Cumprimentos aí pra casa.
    Com carinho
    alice

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  5. Oi meus amigos(as)!
    Cheguei de uma pequena viajem de 4 dias, logo, logo , vou dar uma volta na casa de vcs.
    Saudades...

    Bia.

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